O empréstimo consignado é descontado diretamente do salário ou benefício do INSS — e por ter essa garantia de pagamento, oferece as menores taxas de juros do mercado de crédito pessoal. Mas antes de contratar, você precisa entender os limites, os riscos e especialmente o que acontece com a dívida se você for demitido.
Calcule seu salário líquido para descobrir exatamente qual é a sua margem consignável disponível antes de contratar qualquer empréstimo.
O que é o empréstimo consignado
O consignado é uma modalidade de crédito pessoal regulamentada pela Lei 10.820/2003, na qual as parcelas são descontadas automaticamente da folha de pagamento ou do benefício previdenciário. O credor (banco) tem garantia de recebimento, o que justifica as taxas de juros menores.
Está disponível para:
- Trabalhadores CLT (desde que a empresa tenha convênio com a instituição financeira)
- Servidores públicos federais, estaduais e municipais
- Aposentados e pensionistas do INSS
- Militares
Como funciona o desconto em folha
- O trabalhador solicita o empréstimo ao banco conveniado
- O banco verifica a margem consignável disponível (via sistema da empresa ou INSS)
- Após a aprovação, o contrato é assinado
- O banco informa à empresa o valor da parcela mensal
- A empresa desconta diretamente da folha e repassa ao banco
- O trabalhador recebe o salário já com o desconto
Limite de comprometimento: a margem consignável
A lei estabelece um limite máximo de comprometimento do salário líquido (após INSS e IRRF, não sobre o bruto):
| Categoria | Limite total | Parcelas de empréstimo | Cartão consignado |
|---|---|---|---|
| Trabalhador CLT | 35% | 30% | 5% |
| Servidor público | 35% | 30% | 5% |
| Aposentado/pensionista INSS | 35% | 30% | 5% |
| Militar | 35% | 30% | 5% |
Atenção: o limite de 35% é sobre o salário líquido, não sobre o bruto. Muitas pessoas erram esse cálculo e se surpreendem com a margem menor do que imaginavam.
Exemplo completo de cálculo da margem consignável
Trabalhador CLT, salário bruto de R$ 5.000, solteiro, sem dependentes:
| Item | Valor |
|---|---|
| Salário bruto | R$ 5.000,00 |
| INSS (tabela 2026) | - R$ 509,59 |
| Base IRRF | R$ 4.490,41 |
| IRRF | - R$ 338,17 |
| Salário líquido | R$ 4.151,83 |
| Margem consignável (30%) | R$ 1.245,55 |
| Margem cartão consignado (5%) | R$ 207,59 |
| Margem total (35%) | R$ 1.453,14 |
Calcule sua margem exata com base no seu salário — e descubra quanto de consignado você realmente pode contratar.
Taxas de juros: o consignado comparado ao mercado
| Produto de crédito | Taxa mensal média (2026) | Taxa anual equivalente |
|---|---|---|
| Consignado INSS | 1,66% | 21,9% |
| Consignado servidor público | 1,80% | 23,8% |
| Consignado CLT privado | 2,20% | 29,7% |
| Crédito pessoal (sem garantia) | 6,5% | 113% |
| Cheque especial | 8,2% | 158% |
| Cartão de crédito (rotativo) | 13,5% | 351% |
A diferença é enorme: para um empréstimo de R$ 10.000, o consignado CLT custa cerca de R$ 2.000 a mais do que o inicial em juros ao longo de 24 meses — enquanto o cartão de crédito rotativo pode custar mais de R$ 30.000 no mesmo período.
Simulação: quanto pago de juros total?
Exemplo — R$ 10.000 em 24 parcelas
| Produto | Parcela mensal | Total pago | Juros totais |
|---|---|---|---|
| Consignado CLT (2,20%) | R$ 523,97 | R$ 12.575,28 | R$ 2.575,28 |
| Crédito pessoal (6,5%) | R$ 749,32 | R$ 17.983,68 | R$ 7.983,68 |
| Cartão rotativo (13,5%) | R$ 1.381,00 | R$ 33.144,00 | R$ 23.144,00 |
O que acontece com o consignado na demissão
Este é o ponto mais crítico para trabalhadores CLT — e o menos explicado pelos bancos na hora da contratação:
Cenário 1 — Saldo de verbas rescisórias cobre a dívida
- O saldo devedor é descontado integralmente das verbas rescisórias
- O banco tem prioridade no recebimento
- O trabalhador recebe apenas o saldo restante
- Limite: o desconto nas rescisórias não pode ultrapassar 30% do valor das verbas
Cenário 2 — Verbas rescisórias não cobrem a dívida
- O banco desconta o que couber nas verbas (até 30%)
- O saldo restante vira dívida comum (sem garantia de desconto em folha)
- O banco perde a garantia do consignado e passa a cobrar com juros de crédito pessoal
- Pode haver negativação no SPC/Serasa e cobrança judicial
Cenário 3 — Reemprego
- Se você for contratado por outra empresa com convênio com o mesmo banco, o desconto em folha pode ser retomado
- Esse processo é chamado de portabilidade de margem
Calcule suas verbas rescisórias e veja quanto sobraria após o desconto do consignado em uma eventual demissão.
Portabilidade do consignado
O trabalhador pode transferir o saldo devedor de um banco para outro com taxa menor — sem pagar multa. É um direito garantido pela Resolução do Banco Central nº 4.292/2013.
Como fazer a portabilidade
- Simule as taxas em outros bancos e financeiras
- Solicite ao novo banco a portabilidade — ele cuida de todo o processo
- O banco atual tem 5 dias úteis para responder
- Se aprovado, o saldo é transferido e as parcelas passam a ser cobradas pelo novo banco
Refinanciamento: cuidado com a armadilha
O banco pode oferecer refinanciar o consignado, o que significa:
- Pegar um novo empréstimo maior para quitar o atual
- Liberar "dinheiro novo" para o cliente
- Aumentar o prazo total
O problema é que o refinanciamento aumenta o total de juros pagos ao longo do tempo. Só refinancie se a taxa nova for significativamente menor ou se for emergência.
Cartão de crédito consignado
O cartão consignado tem limite de 5% do salário líquido (dentro dos 35% totais) e funciona como um cartão de crédito comum, mas a fatura mínima é descontada diretamente em folha. Vantagem: juros do rotativo são muito menores que os do cartão convencional. Desvantagem: parte da margem consignável fica comprometida mesmo quando o cartão não está sendo usado.
Erros comuns de quem contrata consignado
- Não calcular a margem real: calcular sobre o salário bruto em vez do líquido e se surpreender com o comprometimento real
- Não comparar taxas: aceitar a primeira oferta sem comparar bancos e financeiras
- Pagar seguro embutido desnecessário: muitos contratos incluem seguros de vida/desemprego que encarecem a parcela
- Comprometer toda a margem: sem deixar folga para emergências ou outros descontos em folha
- Não considerar o risco de demissão: especialmente em empregos mais instáveis, a dívida pode se tornar um problema grave
Dicas para trabalhadores
- Calcule sua margem líquida real antes de ir ao banco negociar
- Compare ao menos 3 bancos ou use um comparador de crédito
- Leia o contrato completo, especialmente as cláusulas de seguro e multa por antecipação
- Prefira prazos menores — pague menos juros no total mesmo que a parcela seja maior
- Se tiver consignado antigo com taxa alta, pesquise portabilidade imediatamente
- Mantenha ao menos 10% de folga na margem para imprevistos
Dicas para empregadores
- Implemente convênio com mais de um banco para dar opções aos funcionários
- Informe claramente aos empregados como funciona o desconto e o que acontece na demissão
- Mantenha o sistema de folha atualizado com as margens disponíveis para evitar erros de desconto
- Oriente o RH sobre o limite de 30% nas verbas rescisórias em caso de demissão com consignado ativo
Calcule o custo real do funcionário considerando todos os encargos e benefícios da folha de pagamento.
FAQ — Perguntas frequentes
1. Qual é o prazo máximo de um consignado CLT?
Varia conforme o banco e o convênio com a empresa. Em geral, o prazo máximo para CLT privado é de 48 a 96 meses. Para servidor público e aposentados INSS, pode chegar a 120 meses.
2. Posso contratar consignado se estiver em período de experiência?
Depende do banco e da empresa. Muitos exigem que o trabalhador tenha superado o período de experiência (90 dias em geral). Verifique as condições específicas do convênio.
3. O consignado aparece no Serasa ou SPC?
O contrato de consignado em si não aparece como dívida negativa. Mas se você for demitido, o saldo não quitado virar dívida comum e atrasar, pode haver negativação.
4. Posso quitar o consignado antes do prazo?
Sim. A quitação antecipada é um direito do consumidor (Código de Defesa do Consumidor) e o banco deve cobrar apenas o saldo devedor corrigido, sem multa.
5. Existe consignado para negativados?
Sim. Como o desconto é em folha, o banco tem garantia de pagamento — por isso o consignado pode ser aprovado mesmo com restrições no SPC/Serasa, dependendo da instituição e do convênio.
6. O banco pode aumentar a taxa durante o contrato?
Não. A taxa de juros do consignado é fixada no contrato e não pode ser alterada unilateralmente pelo banco após a assinatura.
7. O que é a "margem SIAPE" para servidores?
O SIAPE (Sistema Integrado de Administração de Recursos Humanos) é o sistema de controle da margem consignável dos servidores federais. A margem disponível é consultada automaticamente pelos bancos conveniados antes de aprovar o empréstimo.
Conclusão
O consignado é a opção mais barata de crédito pessoal disponível no mercado — mas exige planejamento. Calcule bem sua margem, compare taxas, e tenha um plano para o caso de demissão. Use as ferramentas do Holerit para tomar a melhor decisão:
- Calculadora de Salário Líquido — descubra sua margem real
- Calculadora de Rescisão — simule o impacto de uma demissão
- Calculadora de INSS — confira seus descontos previdenciários
- Salário Realidade Brasileira — veja quanto sobra de verdade no seu bolso